MUTES
Biografia
Nasce em 1976, em Margny-lès-Compiègne, França. Em 1986 muda-se para Arcos de Valdevez, Portugal, território onde o gesto se transforma em raiz, e onde continua a criar e a respirar arte. Pintor autodidata, Mutes é um Cubista do avesso, um apregoador do DesCubismo Contornismo, linguagem que subverte a forma, que destrói para reconstruir, que abre o corpo da cor para lhe mostrar o nervo. A sua pintura é um diálogo entre o rigor da linha e a emoção do caos, entre o contorno que aprisiona e o instinto que liberta. Desde 2004 expõe com regularidade, somando já mais de 260 exposições — individuais e coletivas — em Portugal e no estrangeiro. Está representado em diversas coleções e espaços culturais. Desde 2018, colabora com o Movimento Dadaísta “Maintenant” (Three Rooms Press, Nova Iorque, EUA), integrando o espírito provocador e libertário do dadaísmo na sua própria alquimia plástica.
A sua arte ultrapassa a tela: criou uma linha de copos para a marca Other Worlds Brewing (Miami, Flórida), uma linha de sapatilhas All Star para o Brasil (2016), e diversas capas de álbuns, livros e instrumentos musicais, onde o traço se torna som, palavra e ritmo. Autor de 12 murais em território português e um no Canadá inserido no Vivid Art Fest 20205, Mutes é também o mentor e curador da exposição quadrienal Arcoz’Arte, promovendo desde 2012 a partilha e o encontro entre artistas. Distinguido com o Art Prize Picasso (Carrousel du Louvre, Paris, 2016), uma Menção Honrosa na Brick Lane Gallery (Londres, 2017) e a Medalha de Criatividade da Von Zeidler Art Gallery (Berlim, 2021), continua a percorrer o mundo com a mesma inquietude de quem pinta não para mostrar, mas para dizer o que o silêncio não diz.
O DESCUBISMO CONTORNISMO
Entre o contorno e o abismo existe uma linha — e é aí que pinto.
O DesCubismo Contornismo nasce da tensão entre forma e instinto:
da geometria que se quebra, da emoção que resiste,
da cor que já não quer ser cor, mas pensamento em movimento.
É a minha forma de procurar liberdade dentro da linha. Parto do cubismo, mas retiro-lhe o peso da rigidez, deixando que o contorno se torne movimento e não fronteira. As formas surgem fragmentadas, mas sempre humanas; a cor respira, revela imperfeições e dá espaço ao inesperado. Neste processo, descubro o que a linha contém e o que deixa escapar. O meu trabalho não pretende impor uma leitura — convida apenas a olhar, reconstruir e sentir.
Por: Noélia de Santa Rosa
A arte de Mutes remete-nos para o mundo primordial das infâncias do homem, onde a cor comunica com os nossos sentidos e as formas livres nos falam da vida e das lutas entre as sombras e a luz dos desejos. Ela faz-nos lembrar os primeiros passos do cubismo pela mão de um Picasso, percorre os traços de um Júlio Pomar para desaguar num Miró, mas também nos induz às viagens por África pelo pulsar de um Malangatana ou por um Matsinhe onde os sons e os ritmos se entrelaçam nas origens da musicalidade até ao modernismo do rock plasmadas nas cores e formas que evoluem na sua obra. Cada figura que nasce numa tela de Mutes conta-nos uma história, grita-nos as injustiças da nossa sociedade, mostra-nos a luta entre o ter e o ser, aponta o dedo denunciador das elites e do seu poder, revela-nos o cinzentismo da alta finança em confronto com a miséria dos explorados e a alienação das massas pelos media e pelas novas tecnologias. Absorver todos os signos das figuras de Mutes não é um exercício fácil, ele obriga o observador a fazer um exercício de desconstrução do real imediato para o real exposto, a simbiose entre a animalidade dos desejos obscuros e os desejos sonhados. A primeira perceção da obra de Mutes ou é conquistada de imediato ou é assimilada após várias observações, onde se vai descobrindo cada figura, cada detalhe conforme Mutes se vai revelando na sua visão do mundo pictórico em percursos tortuosos da exposição que faz dos mundos dentro do mundo para onde nos encaminha e do qual somos parte e figurantes. Mas depois de nos conquistar e de nos introduzir nesse mundo dentro dos seus mundos, depois de assimilarmos os contornos da cor em simbiose com os ritmos, sentimo-nos parte dessas histórias, atores e participantes de um mundo sonhado e mutante onde a cor é signo de esperança e de alegria fraterna.
Por: Adolfo Luxuria Canibal
O que de imediato atrai na pintura de Mutes é o seu impacto Pop. O olhar é de pronto convocado pela explosão de cores lisas e primárias que emanam das suas telas, numa profusão de detalhes e estilhaços a fazer lembrar os grandes vitrais das catedrais góticas. Depois, o seu “(des)cubismo” ganha visibilidade, com a sobreposição das diversas partes do representado num mesmo plano e a visualização espacial da imagem nos seus diversos ângulos em simultâneo, na senda do encetado por Georges Braque e Pablo Picasso no início do século XX, a ser ponto de partida para o aprofundar da geometria das formas. Mas em Mutes esta decomposição dos objectos na sua representação geométrica é torpedeada pela intrusão de outros elementos gráficos, nomeadamente figuras humanas, bichos e instrumentos musicais, saídos do universo da banda-desenhada, num piscar de olho à linha clara da BD franco-belga, que contrastam, no seu desenho curvo e bidimensional, com a envolvente geometral e escultórica que dá corpo ao vitral multicolorido que vão paulatinamente invadindo. E tal como nos vidrais góticos e nas histórias aos quadradinhos, a pintura de Mutes apresenta-se como narrativa sequencial, afirma-se como denúncia ou comentário sobre o mundo, ora sarcástico, ora colérico, ora afectuoso, mas sempre pessoal. Um comentário que se lê visualmente, sem ordem precisa, e que acaba por ser, mais do que o arrebatamento estético pictórico, o objectivo último do acto de pintar e de criar. Como se na consciência de ser social residisse toda a força do artista enquanto criador, imprimindo à sua pintura a denúncia dos desacertos e das iniquidades do mundo, perversidades que Deus e os homens não souberam ou não quiseram evitar. Como se a pintura não fosse mais do que instrumento para o despoletar de reacções e emoções, um catalisador de acção correctora, um manifesto poético sensorial.
Historial de Exposições
17 mai 2025 — 19 jul 2025